Boletim da Sala de Imprensa da Santa Sé
(tradução de Leonardo Meira - equipe CN Notícias)
CATEQUESESala Paulo VI
Quarta-feira, 14 de setembro de 2011
Queridos irmãos e irmãs,
na
Catequese de
hoje, gostaria de me aprofundar em um Salmo com fortes implicações
cristológicas, que continuamente aflora nas narrações da paixão de
Jesus, com a sua dúplice dimensão de humilhação e de glória, de morte e
de vida.
É o Salmo 22, segundo a tradição hebraica, 21
segundo a tradição greco-latina, uma oração dolorosa e tocante, de uma
densidade humana e riqueza teológica que o tornam um dos Salmos mais
rezados e estudados de todo o Saltério. Trata-se de uma longa
composição poética, e nós nos deteremos particularmente sobre a primeira
parte, centrada no lamento, para aprofundar algumas dimensões
significativas da oração de súplica a Deus.
Esse Salmo
apresenta a figura de um inocente perseguido e circundado por
adversários que desejam a sua morte; e ele recorre a Deus em um lamento
doloroso que, na certeza da fé, abre-se misteriosamente ao louvor. Na
sua oração, a realidade angustiante do presente e a memória consoladora
do passado alternam-se, em uma sofrida busca de consciência da própria
situação desesperadora, que, contudo, não deseja renunciar à esperança. O
seu grito inicial é um apelo dirigido a um Deus que parece distante,
que não responde e parece tê-lo abandonado:
"Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?
E permaneceis longe de minhas súplicas e de meus gemidos?
Meu Deus, clamo de dia e não me respondeis;
imploro de noite e não me atendeis" (vv. 2-3)
Deus
silencia-se, e esse silêncio lacera a alma do orante, que
incessantemente chama, mas sem encontrar resposta. Os dias e as noites
sucedem, em uma busca inestancável de uma palavra, de um auxílio que não
vem; Deus parece tão distante, tão esquecido, tão ausente. A oração
pede escuta e resposta, solicita um contato, busca uma relação que possa
dar conforto e salvação. Mas, se Deus não responde, o grito de
auxílio se perde no rosto e na solidão tornada insustentável. E ainda
assim, o orante do nosso Salmo, por três vezes, no seu grito, chama o
Senhor de "meu" Deus, em um extremo ato de confiança e de fé.
Não
obstante toda a aparência, o Salmista não pode crer que o vínculo com o
Senhor tenha sido interrompido totalmente; e, enquanto questiona o
porquê de um presunto abandono incompreensível, afirma que o "seu" Deus
não pode o abandonar.
Come se nota, o grito inicial do
Salmo, "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?", é reportado
pelos Evangelhos de Mateus e de Marcos como o grito lançado por Jesus
morrendo na cruz (cf.
Mt 27,46;
Mc 15,34). Isso
expressa toda a desolação do Messias, Filho de Deus, que está
enfrentando o drama da morte, uma realidade totalmente oposta ao Senhor
da vida. Abandonado por quase todos os seus, traído e renegado pelos
discípulos, entornado por quem o insulta, Jesus está sob o peso
esmagador de uma missão que deve passar pela humilhação e aniquilamento.
Por isso grita ao Pai, e o seu sofrimento assume as palavras dolorosas
do Salmo. Mas o seu não é um grito desesperado, como não o era aquele do
Salmista, que na sua súplica percorre um caminho atormentado de névoas,
mas, sim, encontra-se em uma perspectiva de louvor, na confiança da
vitória definitiva. E porque, no costume hebraico, citar ao início de um
Salmo implicava uma referência a todo o poema, a oração agonizante de
Jesus, ainda que mantendo a sua carga de indizível sofrimento, abre-se à
certeza da glória. "Porventura não era necessário que Cristo sofresse
essas coisas e assim entrasse na sua glória?", dirá o Ressuscitado aos
discípulos de Emaús (
Lc 24,26).
Na sua paixão, em
obediência ao Pai, o Senhor Jesus atravessa o abandono e a morte para
chegar à vida e doá-la a todos os crentes.
A esse grito inicial de súplica, no nosso
Salmo 22, segue-se, em doloroso contraste, a recordação do passado:
"Nossos pais puseram sua confiança em vós,
esperaram em vós e os livrastes.
A vós clamaram e foram salvos;
confiaram em vós e não foram confundidos" (vv. 5-6)
Aquele
Deus que hoje, ao Salmista, parece tão distante, é, contudo, o Senhor
misericordioso que Israel sempre experimentou em sua história. O povo a
que o orante pertence foi alvo do amor de Deus e pôde testemunhar a sua
fidelidade. A começar pelos Patriarcas, e depois no Egito e na longa
peregrinação pelo deserto, na permanência na terra prometida em contato
com populações agressivas e inimigas, até a escuridão do exílio, toda a
história bíblica foi uma história de grito de auxílio por parte do povo e
de respostas salvíficas por parte de Deus. E o Salmista faz referência à
constante fé dos seus pais, que "confiaram" – por três vezes essa
palavra é repetida – sem nunca ficarem desiludidos. Agora, todavia,
parece que essa cadeia de invocações confiantes e respostas divinas se
interrompe; a situação do Salmista parece desmentir toda a história da
salvação, tornando ainda mais dolorosa a realidade presente.
Mas
Deus não pode se contradizer, e eis então que a oração volta a
descrever a situação penosa do orante, para induzir o Senhor a ter
piedade e intervir, como tinha sempre feito no passado. O
Salmista define-se como um "verme, não sou homem, o opróbrio de todos e a
abjeção da plebe" (v. 7), é ridicularizado, escarnecido (cf. v. 8) e
ferido exatamente na fé: "Esperou no Senhor, pois que ele o livre, que o
salve, se o ama" (v. 9), dizem. Sob os golpes zombeteiros da ironia e
da provocação, parece quase que o perseguido perde as próprias
conotações humanas, como o Servo sofredor esboçado no
Livro de Isaías (cf.
Is 52,14; 53,2b-3). E como o justo oprimido do
Livro da Sabedoria (cf. 2,12-20), como Jesus no Calvário (cf.
Mt
27,39-43), o Salmista coloca em questão o seu relacionamento com o seu
Senhor, no realce cruel e sarcástico disto que o está fazendo sofrer: o
silêncio de Deus, a sua aparente ausência.
No entanto, Deus esteve presente na existência do orante com uma proximidade e uma ternura incontestáveis.
O Salmista recorda-o ao Senhor: "Sim, fostes vós que me tirastes das
entranhas de minha mãe e, seguro, me fizestes repousar em seu seio. Eu
vos fui entregue desde o meu nascer" (vv. 10-11a). O Senhor é o Deus da
vida, que faz nascer e acolhe o recém-nascido e toma cuidado dele com
afeto de pai. E, se antes era feita memória da fidelidade de Deus na
história do povo, agora o orante evoca a própria história pessoal de
relacionamento com o Senhor, ressaltando o momento particularmente
significativo do início da sua vida. E ali, não obstante a desolação do
presente, o Salmista reconhece uma proximidade e um amor divinos tão
radicais a ponto de poder agora exclamar, em uma confissão plena de fé e
geradora de esperança: "desde o ventre de minha mãe vós sois o meu
Deus" (v. 11b).
O lamento torna-se, então, súplica do coração:
"Não fiqueis longe de mim, pois estou atribulado; vinde para perto de
mim, porque não há quem me ajude" (v. 12). A única proximidade que o
Salmista percebe e que o espanta é aquela dos inimigos. É, portanto,
necessário que Deus se faça próximo e socorra, porque os inimigos
circundam o orante, cercam-no, e são como touros numerosos, como leões
que abrem suas fauces para rugir e arrebatar (cf. vv. 13-14). A angústia
altera a percepção do perigo. Os adversários parecem invencíveis,
tornam-se animais ferozes e perigosíssimos, enquanto o Salmista é como
um pequeno verme, impotente, sem defesa alguma.
Mas essas
imagens usadas no Salmo servem também para dizer que, quando o homem
torna-se brutal e agride o irmão, algo de animalesco toma conta dele,
parece perder toda a aparência humana; a violência tem sempre em si algo
de bestial e somente a intervenção salvífica de Deus pode restituir o
homem à sua humanidade. Ora, para o Salmista, objeto de tantas
ferozes agressões, parece não haver mais escapatória, e a morte começa a
tomar posse dele: "Derramo-me como água, todos os meus ossos se
desconjuntam; [...] minha garganta está seca qual barro cozido, pega-se
no paladar a minha língua [...] repartem entre si as minhas vestes, e
lançam sorte sobre a minha túnica" (vv. 15.16.19). Com imagens
dramáticas, que se reencontram nas narrativas da paixão de Cristo,
descreve-se o desfalecimento do corpo condenado, a sede insuportável que
atormenta o homem moribundo e que encontra eco no pedido de Jesus:
"Tenho sede" (cf. Jo 19,28), para chegar ao gesto definitivo dos algozes
que, como os soldados sob a cruz, repartem entre si as vestes da
vítima, considerada já morta (cf.
Mt 27,35;
Mc 15,24;
Lc 23,34;
Jo 19,23-24).
Eis então, urgente, de novo o pedido de socorro: "Porém, vós, Senhor,
não vos afasteis de mim; ó meu auxílio, bem depressa me ajudai. […]
Salvai-me" (vv. 20.22a). É esse um grito que adentra os céus, porque
proclama uma fé, uma certeza que vai para além de toda a dúvida, de toda
a escuridão e de toda a desolação. E o lamento transforma-se, cede
lugar à oração no acolhimento da salvação: "Então, anunciarei vosso nome
a meus irmãos, e vos louvarei no meio da assembleia" (vv. 22c-23).
Assim, o Salmo abre-se à ação de graças, ao grande hino final que
envolve todo o povo, os fiéis do Senhor, a assembleia litúrgica, as
gerações futuras (cf. vv. 24-32). O Senhor vem em auxílio, salvou o
pobre e lhe mostrou o seu rosto de misericórdia. Morte e vida se
entrecruzam em um mistério inseparável, e a vida triunfou, o Deus da
salvação se mostrou no Senhor de modo incontestável, tanto que todos os
confins da terra O celebrarão e diante d'Ele todas as famílias dos povos
se prostrarão.
É a vitória da fé, que pode transformar a morte em dom da vida, o abismo do dor em fonte de esperança.
Irmãos e irmãs caríssimos, esse Salmo nos levou ao Gólgota, aos pés da
cruz de Jesus, para reviver a sua paixão e compartilhar a alegria
fecunda da ressurreição.
Deixemo-nos, portanto, invadir pela luz
do mistério pascal também na aparente ausência de Deus, também no
silêncio de Deus, e, como os discípulos de Emaús, aprendamos a discernir
a verdadeira realidade para além das aparências, reconhecendo o caminho
da exaltação exatamente na humilhação, e o pleno manifestar-se da vida
na morte, na cruz. Assim, recolocando toda a nossa confiança e a nossa
esperança em Deus Pai, em cada angústia, possamos rezar também nós a Ele
com fé, e o nosso grito de súplica se transforme em canto de louvor. Obrigado.

Ao final da Catequese, o Papa dirigiu aos peregrinos de língua portuguesa a seguinte saudação:
Dirijo
a minha saudação amiga aos membros da União Missionária Franciscana,
vindos de Portugal, aos brasileiros do Grupo Vocacional e a todos os
demais peregrinos lusófonos aqui presentes. Neste dia da Exaltação da
Santa Cruz, deixemo-nos invadir pela luz do mistério pascal, para
reconhecermos o caminho da exaltação precisamente na humilhação,
colocando toda a nossa esperança em Deus, e assim o nosso grito de ajuda
transformar-se-á em cântico de louvor. E que a bênção de Deus desça
sobre vós e vossas famílias!
Fonte: http://noticias.cancaonova.com/noticia.php?id=283492